Por Thiago de Moraes
Na noite de 2 de julho de 2025, a Cinemateca Brasileira se transformou em palco de memória e reparação. O lançamento da trilogia sobre Oswaldo Massaini revelou muito mais do que a vida de um produtor: expôs, com elegância e coragem, as omissões da história do cinema nacional.
Poucos eventos culturais recentes conseguiram reunir, em uma mesma noite, tanta densidade simbólica. Na terça-feira passada, a Cinemateca Brasileira, em São Paulo, deixou de ser apenas um lugar de arquivos e projeções para se tornar o cenário vivo de uma restituição histórica. O lançamento da trilogia Massaini – A Arquitetura de um Cinema Popular, de autoria do pesquisador e professor Paulo Fernando dos Santos, publicado pela Editora Appris, foi mais que um tributo — foi uma convocação.
Durante anos, Oswaldo Massaini permaneceu ausente das narrativas que definem o cinema brasileiro. E no entanto, foi ele quem produziu O Pagador de Promessas, único longa nacional laureado com a Palma de Ouro em Cannes. A trilogia recém-lançada mergulha nas contradições dessa ausência: como alguém que contribuiu decisivamente para a linguagem audiovisual do país pôde ser tão solenemente silenciado?
Ao longo dos três volumes, Paulo Fernando dos Santos entrega ao leitor muito mais que uma biografia. Sua pesquisa rigorosa, atravessada por documentos inéditos, entrevistas, registros censórios e análises críticas, constrói uma cartografia complexa: a de um produtor que não apenas fazia filmes, mas pensava — e confrontava — o sistema de produção cultural brasileiro.
Na cerimônia de lançamento, o autor destacou o compromisso de Massaini com o público, sem nunca abrir mão da ambição estética. “Ele não era só um articulador de bilheteria. Era um visionário que soube equilibrar mercado, linguagem e resistência. O que a crítica ignorou por décadas, o tempo começa a reparar agora”, disse Santos, diante de uma plateia atenta e emocionada.
O evento reuniu pesquisadores, artistas, cineastas, jornalistas e estudantes. Muitos não escondiam o espanto ao descobrir a amplitude da obra de Massaini, frequentemente reduzido à figura de empresário. Mas o que os livros revelam — e o que a noite reafirmou — é que seu legado vai além das cifras ou das produções. Ele inaugurou um modo de fazer cinema popular que não era submisso à lógica estrangeira, nem enclausurado em estéticas herméticas.
A trilogia Massaini – A Arquitetura de um Cinema Popular já está disponível em livrarias físicas e plataformas digitais. A obra, dividida em três volumes — O Homem por Trás do Mito, Cinema é Política e O Legado Invisível — deve circular em universidades, festivais e centros culturais ao longo dos próximos meses. Com ela, o Brasil recupera não apenas um nome, mas um debate: que lugar queremos dar à memória de quem ousou filmar o país sem pedir licença?
Por Thiago de Moraes
Thiago de Moraes é jornalista, pesquisador em cultura visual e colaborador em projetos editoriais independentes. Atua com crítica cultural, memória do audiovisual brasileiro e produção de conteúdo para veículos de imprensa e instituições culturais. Dedica-se especialmente à interseção entre mídia, identidade e história social.




